Artigo

Inconsciente e decisão

"O nosso cérebro toma decisões muito antes de nós"

John Dylan Haynes (Neurocientista)

Quando a decisão não entra em choque com a "vontade" do neocórtex, passa despercebida a sua origem (nas zonas mais remotas da mente) e é sentida ilusoriamente como uma decisão racional. Quando entra em choque tomamos consciência destas duas vontades (inconsciente/consciente) e sentimo-nos impotentes e condenados a um comportamento que não desejamos, a um comportamento que está para além da nossa vontade, das nossas escolhas.

 

Mas a nível cognitivo parece não existir uma verdadeira diferença entre estes dois tipos de decisão. São ambas “irracionais” na medida em que são originadas fora da região racional do nosso cérebro, o neo-córtex. No momento em que ocorre a decisão ou o comportamento, chamado tempo presente, é sempre a mente inconsciente que lhe está subjacente.

 

A tomada de decisão é altamente complexa, envolve a análise de inúmeras variáveis contextuais e de memórias que a mente consciente está longe de conseguir alcançar e muito menos no tempo em que a mente inconsciente a toma. Embora a mente consciente ainda seja muito pouco conhecida, sabemos que não é esta a sua especificidade, que é incapaz de lidar com a quantidade de informação em que estamos constantemente envolvidos. 

A atividade cerebral mostra a decisão que o sujeito vai tomar 7 a 10 segundos antes da decisão consciente.

 

Parece que o cérebro induz e programa a decisão. Isto é, quando surge a decisão e o comportamento, quem o escolhe e gere é a mente inconsciente - termo simples para designar a atividade cerebral que ocorre fora do neocórtex, zonas onde ocorrem os sistemas de atividade cerebral autónomos que gerem o nosso bem-estar e garantem a nossa sobrevivência - só depois essa decisão acede ao neocórtex, nomeadamente aos lobos pré-frontais, que podemos denominar de mente consciente.
 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

 

Só por curiosidade, o Cérebro Humano pode absorver 11 milhões de unidades de informação por segundo. Conscientemente, só temos acesso, no máximo, a 40 unidades. No entanto, as nossas decisões inconscientes integram todas estas unidades nas nossas decisões e no nosso comportamento. Daí que, quando nos deslocamos a uma grande cidade, como Nova York, ficamos extremamente cansados. A enormidade de estímulos recebidos exigem uma triagem do que é significativo para o sujeito e obrigam a reformular padrões. O mesmo acontece quando estamos a aprender algo novo. Lembra-se como se sentia cansado quando aprendeu a conduzir? Cada nova aprendizagem implica uma integração nos padrões inconscientes e esta integração é responsável pelo dispêndio de uma enorme quantidade de  energia.

Desta forma, não é só o funcionamento do nosso organismo que está fora do alcance da nossa consciência e da nossa vontade, também as decisões e o comportamento o estão. Assim, não querendo gaguejar, gaguejamos. Não querendo fumar, fumamos. Querendo fazer exercício, não o fazemos. Querendo comer de forma saudável, comemos doces, gorduras saturadas e fast-food. Não querendo chegar atrasados, chegamos. Não querendo ficar ansiosos, ficamos. Não querendo ter medo, temos. Não nos querendo apaixonar por aquela pessoa, apaixonamo-nos. Não querendo ser agressivos, somos. Querendo dizer o que pensamos, bloqueamos... e a lista continua...

 

Mas vamos a um exemplo ainda mais simples. Quando agarra uma bola que alguém lhe lança, pensa nos pequenos detalhes com que agarra a bola? Quando anda, pensa nos pequenos detalhes que envolvem o andar? Pensou na forma como se sentou ou nos pequenos detalhes que caracterizam a forma como agora está sentado?

A mente consciente intervém sobretudo no passado (recordação) e no futuro (planeamento e expectativas), contudo, também aqui a mente inconsciente têm uma influência determinante. Nomeadamente, porque a recordação não corresponde exatamente ao que aconteceu. As nossas memórias não são exatas nem fixas, são maleáveis para se adaptarem a cada história reconstruída: 99% da nossa perceção é projetada pela nossa memória. Quando vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos, saboreamos, apenas 1% é acrescentado pelos nossos órgãos sensoriais. 99% da percepção é projeção da memória, i.e., dos nossos modelos inconscientes. A nossa percepção pode falsificar o que vemos sobrepondo-lhe o que achamos que deveria existir. Captamos o Mundo, construindo-o, em função das nossas estruturas inconscientes. Isto que as neuro-ciências nos comprovam, não é novidade para o senso comum. Não gostamos de o ouvir, pois trata-se da nossa não racionalidade, mas todos conhecemos a expressão : “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”.

Mas é certo que também a mente consciente pode gerar um comportamento. Mas quando esse comportamento é gerado pela mente consciente, se for contra a vontade inconsciente, não ocorre. Se não for contra os padrões inconscientes, ocorre mas é imperfeito e demorado. Para compreendermos este processo podemos ter em atenção o sorriso.

 

Imagine que encontra uma pessoa de quem gosta e sorri. Como é o seu sorriso? Pensou em sorrir, ou simplesmente sorriu? E se eu não estivesse a fazer esta questão possivelmente nem reparava no seu sorriso. Aqui tem um exemplo de um comportamento gerado pela mente inconsciente, nomeadamente a amígdala, que fica na zona límbica do cérebro.

Agora imagine que encontrou uma pessoa com quem não simpatiza, mas pensa que é importante sorrir para a pessoa. Como é aí o processo? Pensa que é importante sorrir (lobo frontal /neocórtex)- mente consciente) e então gera um comportamento - o sorriso. É este sorriso igual ao primeiro? Sabe que não. O que sai é o chamado sorriso amarelo, pois de forma consciente não conseguimos agir em todos os músculos que geram o sorriso. Apenas o inconsciente o consegue. Os comportamentos gerados pelo "desejo" do neo-córtex são imperfeitos, porque são incompletos
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 A nossa mente consciente tem muita pouca influência no que somos ou fazemos. Têm muito pouco a ver com os nossos grandes desempenhos. 


De facto, a inspiração, a criatividade, o desempenho excelente assim como as disfunções e patologias, têm muito pouco a ver com controlo, com a vontade no momento. 


No entanto, podemos intervir a nível da transformação dos padrões inconscientes assim como na modificação das recordações e nas variáveis contextuais que o inconsciente vai ter em atenção para ativar uma resposta.

Só assim a mudança é possível. Mas a mudança tem que ocorrer no inconsciente para que seja possível.

Ana Afonso

​sr consultant UQ35

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Lisboa, Portugal